A desigualdade por andar
Só hoje percebi a desigualdade estampada nos andares do shopping Iguatemi de Salvador. Sempre passei por lá, geralmente na correria e sem observar os detalhes, muitos tão grandes que não se pode chamar de detalhes. No primeiro piso, encontramos a loja de departamento Americanas e uma multidão de gente que vai e vem de todos os lados quase colidindo, enfim o piso do "povão". O chão do térreo é diferente, as lanchonetes são as mesmas de qualquer shopping, mas há quem diga que os preços variam de acordo com o andar. Então subimos a escada rolante que é presente em todos os andares (escada rolante participa de todas as classes sociais), chegamos ao segundo piso, lojas um pouco mais caras, menos gente passeando, algumas lojas de departamento como C&A e Renner, crianças passeando com seus pais, adolescentes indo ao cinema, aquele cheiro de fast-food no ar nos convidando a dar uma passadinha no Mc Donald's ou no Subway. Segundo piso: é classe média. No terceiro piso até o cheiro é diferente, um cheiro de perfume francês, inglês, italiano, um cheiro europeu (palavras de quem já foi a Europa), não é tirando o mérito do cheiro brasileiro, que muitas vezes eu prefiro. A quantidade de pessoas circulando por esse andar é mínima, o ambiente é mais silencioso, até porque quem freqüenta o terceiro piso não sobe pelas democráticas escadas rolantes, elas chegam de carro direto da garagem. Pela menor quantidade de gente é impossível não reparar nas roupas que usam, na maneira de andar, de conversar, aquela educação que chega a ser chata e excessivamente falsa afinal todo mundo em casa calça o bom, velho e confortável "chinelão", mesmo que seja caríssimo e se não calça não sabe o que perde, além disso no banheiro todos são iguais, mesmo que o vaso sanitário seja da melhor porcelana, os dejetos não tem classe social. Os preços? Não é preciso comentar. Até o cafezinho é mais caro e o chão parece até mais limpo. Se o Ibope fosse fazer uma pesquisa sobre as características das "classes" brasileiras o Iguatemi seria um excelente local de pesquisas e pinta exatamente como anda a desigualdade, perfeitamente como naquelas pirâmides sociais da era feudal que estudei nas aulas de história na época de colégio. Na base os escravos e servos, hoje o povo que trabalha muito, ganha pouco, tem direitos no papel mas não na prática, pouquíssimos possuem estudo de qualidade quando o possuem, ou seja, escravos e servos do capitalismo selvagem e cruel. Entre o topo e base vem a burguesia, de vez enquando prova o gostinho da topo, mas então caem na realidade, compram em 10 vezes sem juros no cartão porque assim talvez consigam ascender socialmente, trabalham duro para assegurar bons estudos e mesmo que escondidos, comprar produtos do "paraguai". No topo, a nobreza, classe alta, terceiro piso, glamour e cegueira. É, cegueira, e proposital, ao poupar os olhos que em nada diferem dos olhos dos servos de enxergar que a realidade é dura, que nem todos vivem numa redoma de vidro e precisam passar pela escada rolante para chegar ao último andar.
Escrito por Carol Guedes às 18h41
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